Viva la vida é a trilha sonora, isso mesmo, da vida

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Arte: Carlos Eduardo de Andrade

Imagino que um dos marcos da independência masculina seja a aquisição das próprias cuecas. Um homem só é senhor do seu destino quando sua mãe para de lhe comprar as roupas de baixo, normalmente fornecidas em pacotes de três nas cores preta, branca e azul. É verdade que muitos só trocam de intermediária, assim como nunca conseguem amadurecer e lidar com responsabilidades, ou mesmo com seus sentimentos e dos outros, mas enfim, talvez a economia emocional das zorbas não seja o meu interesse imediato. Fato é que um homem saiu certo dia da sua existência para adquirir vestes que não lhe deixassem medonho quando seminu diante de uma mulher. A título de ilustração e para tornar mais fácil angariar a empatia do leitor, vamos dizer que esse sujeito fosse eu.

Num dia com 85% de chance de estar nublado, me dirigi à loja de departamentos Havan™, que na época ainda era motivo de frisson na cidade de Guarapuava. Enquanto estacionava, não pude deixar de lamentar que o estabelecimento não contava com seu icônico monumento, presente em diversas lojas da rede e que se tornou referência em decoração até mesmo em terras mais populares que o centro-oeste paranaense.

Requinte e bom gosto
Requinte e bom gosto

Sem perder muito tempo com as camisetas que trazem composições enigmáticas que só podem ser obra de um designer maçom, parti para as gôndolas pretendidas. Evitava de pronto as peças mais espalhafatosas, não só por estética, mas por conservar certo constrangimento, como se o fato quase certo de que encontraria algum conhecido ou parente fosse revelar que, sim, eu uso cueca. Penso em um pesadelo ganhando vida e, numa mistura de Kafka com os irmãos Farrelly, eu estaria lá no corredor, parado, com uma cestinha azul, olhos esbugalhados e sem as calças.

Eis que no meio do meu devaneio doentio, o sistema de som da loja invade minha mente, e entre um anúncio de ofertas e a chamada de alguma vendedora para os caixas, começa a tocar algo inconfundível (a menos que você também conheça If I Could Fly, do Joe Santriani).

“I used to rule the world”. Olha, difícil acreditar nessas palavras se quem diz é o Chris Martin, mas ok. Escapo da imagem do vocalista do Coldplay com uma roupa de banana e distribuindo panfletos, e começo a pensar no quanto Viva la vida é uma música onipresente. (também mando uma mensagem para o mendigo ilustrador Carlos Eduardo Nascimento com quem já tinha conversado sobre isso).

Reis, revoluções, espadas e escudos. A cavalaria romana canta a entrada dos formandos em Ciências Contábeis 2013. Um casal de 19 anos compra a casa própria em um comercial na TV. A garota do ensino médio posta que descobriu o que é o amor e linka o vídeo da música. “Revolutionaries wait for my head on a silver plate” ao fundo enquanto o locutor chama a freguesia na rua para conferir lindas colchas em promoção.

Estou me certificando se a cueca em minhas mãos é realmente do tamanho certo e Chris Martin anuncia que ouve os sinos de Jerusalém. Épico.

É a trilha sonora da vida. E isso é muita coisa. Nascimento de bebês, pagamento de boletos, passeatas no domingo de manhã, sorvete americano na Lagoa das Lágrimas, novelas.

E é um som tão chatinho.

Pago minhas ceroulas e carrego minha sacola em direção à saída. Fantasio que um meteoro imenso está prestes a entrar na atmosfera terrestre e obliterar todas as formas de vida. No espaço não dá pra ouvir o “oooô oooooô” tocando em cada canto do planeta.

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