O amor nos tempos da ligação para a rádio

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Arte: Carlos Eduardo de Andrade
Arte: Carlos Eduardo de Andrade

No ano de 2001, o futuro não chegou e a única odisseia que eu vivenciava era insistir em ir de bicicleta para o colégio mesmo no inverno guarapuavano. Sei que -4°C e geada não se comparam as nevascas que você tinha que tirar à pá no seu intercâmbio fritando hambúrguer em Wyoming, mas é o que temos de passado e de frio. Também acho impróprio começar em plena segunda-feira com a famigerada odisseia hormonal já no primeiro parágrafo.

Enfim, baixa renda que era, ainda telefonava para a rádio pedindo uns grunges para gravar em K7. Ou posso ressignificar essa memória e dizer que já-sabia-que-os-anos-90-eram-cool-no-início-dos-anos-2000.

Não era muito fácil conseguir entrar ao vivo e a variação dos pedidos era mínima. Assim, sua coletânea ia ser basicamente formada de rock nacional e internacional 80 e 90. E o apresentador ia surgir no meio do solo para dizer que Você Acabou De Ouvir Even Flow (sobe o som por alguns segundos) Pearl Jam. Quem sabe na próxima teria a sorte de ter ela completa e limpa.

Sei que normalmente a coisa acontecia assim:

Locutor: Que música você que ouvir?

Eu adolescente: Nirvana, Come as you are.

Locutor: Vai oferecer pra alguém ou é só pra curtir?

Eu adolescente: Só pra curtir.

Por razões óbvias não ia oferecer para alguma coleguinha aleatória. Fato é que era um jovem de boné e camisa xadrez que só acreditava na sinceridade da distorção e repudiava modernidades como teclados (de todo modo, o cara da rádio só tocava versões do acústico MTV porque não gostava de colocar ROCK PESADO na programação). E a verdade é que não tinha nem um crush para oferecer Don’t speak do No Doubt.

No entanto, como em tudo na vida, pretensões musicais são secundárias diante dele, o Amor. Antes do advento da Internet, as pessoas precisavam apelar para táticas paleolíticas de flerte. Como o correio elegante só estava disponível nos festejos juninos/julinos, outra aproach válido era mandar Aquela na estação local. Dessa forma, o Wanderley da Vila Bela tinha que torcer para que Alguém Muito Especial do Concórdia estivesse ouvindo Zélia Duncan, Catedral, naquela frequência na hora exata.

O forte mesmo eram as baladas estrangeiras, que além da seriedade da paixão, também revelavam a necessidade de mais horas de inglês básico no currículo escolar. Lembro de um amigo que se dizia realmente intrigado como o Fulano do Industrial dedicava Scorpions, Wind of change, para sua namorada Ciclana da Primavera. “É uma música sobre transformações políticas”, afirmava pedantemente. Talvez ele ignorasse a possibilidade de Fulano e Ciclana terem uma recordação de quando estavam na antiga União Soviética e caminhavam por Moscou descendo pelo Parque Gorky. Quem sabe o vento da mudança naquele momento era percebido em seus próprios corações. Aposto que toda vez que Fulano escutava o assobio da canção era absorvido por um turbilhão de sentimentos nostálgicos e lembrava do rosto de Ciclana vermelho por causa do gelo e sorria.

Porém, tudo isso era inimaginável para pessoas que se prendiam a coisas como traduções do site Vagalume e artigos no dyingdays.net e whiplash.net. O amor ainda era uma incógnita para quem repetidamente ligava pedindo Metallica, The Unforgiven, e não tinha mais o que responder além de “só pra curtir”.

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