Lose yourself to dance

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Arte: Carlos Eduardo de Andrade
Arte: Carlos Eduardo de Andrade

Chega a uma determinada altura da noite, quando você fita o horizonte e nota que na verdade já é o amanhecer, e não pode nem botar a mão na testa atônito sobre como assim as horas passaram tanto, pois está carregando duas latas de Skol após ser avisado que o bar ia encerrar, então você termina uma das latas e joga na lixeira que, digamos, já extravasou toda a sua existência em alumínio pelo chão, e passa a procurar seu último cigarro que na verdade acabou há meia hora, o que o obriga a desenvolver uma certa relação de amizade com um estranho de olhar vago para que ele lhe empreste um daqueles questionáveis Lucky Strike “que estoura a bolinha”, você acende, agradece e, enfim, chega esse momento em que você encosta no parapeito, olha um céu com tonalidades violetas e pensa “ok, muito legal, mas eu preciso dar um jeito de atravessar essa cidade e dormir”.

Mas é bem nessa hora que o DJ resolve parar de tocar carimbó e emenda um “Every time I see you falling” para alegria de todos os ébrios descoordenados que não conseguem expressar tanto amor assim pela sensualidade dos ritmos tropicais. Os olhares, jogadas de cabelos e passinhos segurando uma saia real ou imaginária dão lugar a pulinhos desajeitados e refrões berrados. É o mais perto que chego de me acabar na pista. Quase como se fosse a histeria que algumas pessoas sentem quando toca o funk mais bagaceira no final da festa. Entra a linha de baixo, mais balançadinhas de cabeça. “Psycho killer, qu’est que c’est?”

“Fa fa fa fa fa fa fa fa fa far better”

Festa, dança, alegria. As expectativas são muito diversas quanto a isso. Sempre gosto de lembrar de um dos tantos eventos nas repúblicas na época da universidade, dotados do mesmo roteiro semanal, em que um camarada veio em minha direção lá pelas tantas da noite, quando cansados das trocentésima vez em que tocaram “Hey Ya” do Outcast, trocamos por System of a Down. “Wyllian, as meninas não estão dançando”, dizia indignado. “As meninas não estão dançando” sempre foi o nome de um indie dançante que eu pretendia escrever, mas que nunca cheguei realmente a fazê-lo. Uma coisa que sempre imaginei meio como um hit para um Franz Ferdinand guarapuavano tocar no finado Tim Festival.

De todo modo, olhei com cara de ¯\_(ツ)_/¯ e voltei a abraçar os meus amigos na rodinha para gritar “Father into your hands, I commend my spirit”.

Não faz tanto tempo, estava numa baladinha com um desses amigos das antigas, hoje dois homens metidos a ter um gosto mais refinado, quando depois de uma série de músicas do set você-tem-que-gostar-disso-pra-não-ser-um-adolescentinho-alineado-pela-cultura-imperialista, rolou um som da nossa adolescência alienadinha pela cultura imperialista dos anos 90. “É tão bom poder curtir a música que a gente realmente gosta, ao invés de ficar na obrigação de estar gostando de algo”, ele confessa.

Então, estamos de volta ao fim da festa e amanhã virou definitivamente hoje. E o veredito é que realmente foi tudo muito divertido, livremente feliz ao sair do pancadão como parte dessa gente estranha que não consegue fazer um-dois no forrozinho, e que sai sorrindo mesmo que a última coisa que a canção tenha dito é que “Love, love will tear us apart”. 

Again.

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