Atentado em Nice precisa “acordar” Brasil para o risco de terrorismo no Rio

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Atentado em Nice precisa “acordar” Brasil para o risco de terrorismo no Rio

Por

Lúcia Müzell

mediaRobert Muggah.
/igarape.org.br

Na mesma semana, a França voltou a ser alvo de um atentado terrorista, que deixou pelo menos 84 mortos em Nice, e a imprensa do país divulgou a informação de que um plano de ataque contra a delegação francesa nas Olimpíadas do Rio de Janeiro foi descoberto pelos serviços secretos de Paris. Os dois eventos, ressaltam especialistas, precisam “acordar” Brasília para o risco real de o país sofrer um atentado durante os Jogos Olímpicos – uma ameaça que, até agora, não parece ter sido levada suficientemente a sério pelas autoridades brasileiras.

A impressão de estudiosos ouvidos pela RFI é a de que o país dormia em berço esplêndido sobre esse risco até muito pouco tempo atrás. Eles observam que o problema só passou a ser de fato levado a sério depois que as primeiras ameaças concretas ao Brasil apareceram, após os atentados de Paris, em novembro de 2015.

Nesse intervalo, Maxime Hauchard, um auto-demonimado integrante do grupo Estado Islâmico, disse que o Brasil seria o próximo alvo de um atentado. No início de julho, a divulgação de que um sírio ex-detento de Guantánamo que estava preso no Uruguai fugiu da penitenciária e pode ter entrado no Brasil aumentou a preocupação. E, por fim, o grupo Estado Islâmico passou a publicar uma edição em português de uma de suas plataformas de propaganda, chamada Nashir português, que convida os brasileiros a se juntar à causa jihadista. Também foram registrados casos de brasileiros que prometerem lealdade ao grupo extremista, principalmente em Santa Catarina.

“O ataque em Nice envia um sinal para as autoridades brasileiras e internacionais, policiais e militares, para ficarem ainda mais atentas do que já estavam”, afirma Robert Muggah, influente especialista canadense em violência e diretor do Instituto Igaparé, que estuda a questão no Brasil. Ele avalia que, nos últimos meses, a ameaça de uma ação a partir do exterior ou de um lobo solitário se mostrou muito maior no país. “A série recente de eventos no Brasil e, agora, a tragédia em Nice, devem levar ao Brasil a tomar ainda mais precauções. Eles são um sinal para o Brasil acordar.”

Argumento de país pacífico é “infantil”, nota ex-capitão do Bope

O governo brasileiro costuma se proteger do risco de atentados sob o argumento de que o país não interfere nos conflitos internacionais, não participa das coalizões militares contra o terrorismo e não tem qualquer tradição nesse tipo de crime no plano nacional. Mas para o antropólogo e consultor em segurança Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), essa explicação revela uma “ingenuidade preocupante”.

“É um argumento infantil dizer que o Brasil não seria alvo de terrorismo porque é um país pacífico e todo o mundo gosta do brasileiro. Isso é desconsiderar totalmente a lógica terrorista”, destaca Storani. “Eles não vão deixar de atacar porque o Brasil é um país de gente boa e porque o governo se omitiu em condenar atentados no exterior”, avalia o consultor.

Os dois especialistas consideram que os Jogos Olímpicos podem representar uma ocasião perfeita para atingir alvos do terrorismo em outros lugares do mundo, como franceses, americanos, ingleses ou israelenses. “O fato de que aconteceram grandes ataques em países como França e a Bélgica mostra que os terroristas são capazes de cumprir ameaças além das suas fronteiras”, diz Muggah, pesquisador afiliado ao Instituto de Relações Internacionais do Rio de Janeiro, à Universidade de Oxford e ao Centro de Conflito, Desenvolvimento e Paz do Instituto de Pós-Graduação de Estudos Internacionais e Desenvolvimento, na Suíça.

Para o canadense, o Brasil está particularmente vulnerável a uma ação externa, com a eventual colaboração de brasileiros simpatizantes do grupo extremista. “Por isso, é fundamental haver uma colaboração robusta e sofisticada entre os serviços secretos brasileiros e estrangeiros”, observa.

Colaboração internacional – talvez tarde demais

Essa parceria existe: Muggah lembra que a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) enviou agentes para o exterior para serem treinados para os Jogos Olímpicos, o país estreitou o diálogo com os serviços de inteligência internacionais e 55 países estarão colaborando de perto com o Brasil durante os Jogos. Além disso, foram feitos pesados investimentos na melhoria dos serviços de investigação e ampliou o arcabouço legislativo sobre o crime de terrorismo.

Entretanto, nesta semana a informação de que a delegação francesa estava ameaçada pela ação de um brasileiro ligado ao grupo Estado Islâmico parece ter pego a Abin de surpresa. “A demonstração de surpresa mostra a falta de preparo. Essa atitude chamou a atenção e, conhecendo a psiquê da autoridade brasileira, a surpresa de fato aconteceu”, afirma Storani.

“É bastante preocupante que essa ameaça não fosse conhecida dos brasileiros. Acho que o Brasil, os seus serviços de inteligência e as forças de segurança brasileiras não parecem muito sensibilizadas com as ameaças extremistas que vêm do exterior, especialmente do Oriente Médio, mas também da Europa”, completa Muggah. “O risco existe, sim. Até muito pouco atrás, todo o foco estava na violência urbana, que inclusive aumentou no último ano. A preocupação com o terrorismo é muito recente.”

O ex-capitão do Bope nota que, desde os Jogos de Londres, em 2012, a colaboração internacional com o Brasil para prevenir atentados nas Olimpíadas foi esporádica. Ele garante que essa cooperação se acentuou, de fato, há apenas três meses. “É pouquíssimo tempo para desenvolver ações eficazes.”

Violência urbana

Já em relação à violência urbana, outra forte preocupação dos estrangeiros no Brasil, Muggah e Storani avaliam que o Rio de Janeiro demonstra estar bem preparado para garantir a segurança dos locais das competições, transportes e principais pontos turísticos. As imagens dos protestos dos policiais no aeroporto do Galeão rodaram o mundo e assustaram os turistas, mas não passariam de uma ameaça de greve que não deve se concretizar, avaliam.

A cidade vai contar com o dobro de policiais que estavam nas ruas de Londres nos Jogos de 2012. O problema, ressaltam os especialistas, é se os turistas decidirem descobrir sozinhos a cidade e se aventurarem em locais desprotegidos.

“Tentar conhecer algo que não foi preparado, como ir a uma comunidade para ver como é, em geral não é uma boa ideia. Frequentar lugares que não têm o nível de proteção planejado para as Olimpíadas pode resultar em um assalto ou outro ato de violência”, resume Storani.

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Fonte: Rádio França Internacional

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