Grant Lee Buffalo – Fuzzy (1993)

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Em algum ponto inexato ali pela metade da primeira década dos anos 2000 eu estava completamente quebrado, física, mental e espiritualmente, afundado até o último fio de cabelo em crises de ansiedade, depressão, drogas, álcool e com uma vontade louca de desaparecer.

Entrar num ônibus e pegar a estrada para algum lugar – qualquer lugar – e me ver longe do mundo e das pessoas era a solução (por vezes) menos agressiva a meu corpo meio debilitado, de preferência em viagens pela madrugada e, invariavelmente, solitárias.

Foi numa dessas fugas, no limiar de uma manhã gelada e bêbada de um inverno rigoroso, que ao chegar a meu destino abri meu case de CDs e me deparei com uma coletânea chamada Fuckin’ songs for a fuckin’ broken heart (sim, jovens, nós fazíamos playlists temáticas antes do spotifail). Pluguei o discman (sim, jovens, nós ouvíamos música em aparelhos pré-mp3) nas caixinhas de som que carregava comigo e logo veio “Jupiter and teardrop”. Foi dessa forma triste e desequilibrada que me reencontrei com o Grant Lee Buffalo e seu primeiro disco, Fuzzy.

Dadas as circunstâncias, não foi um encontro fácil. Cada pedacinho desse álbum tinha um efeito duplo sobre minha cabeça e coração perturbados: ao mesmo tempo que me lembravam do cara que eu tinha sido, me jogavam na cara o sujeito que havia me tornado. Era a gangorra da vida, balançando entre entusiasmo e melancolia.

“You just have to be crazy don’t you
You just have to be out of your mind
You just have to be crazy don’t you
You just have to be
True or not…”

Como aconteceu a tantos e tantos discos que me acompanharam e ajudaram a passar por essa jornada sombria, Fuzzy se tornou uma espécie de relicário onde guardo minhas memórias mais doloridas. Volta e meia, como hoje, retorno a ele, consciente de que algumas cicatrizes não somem com o tempo (ao contrário do que diz a sabedoria popular), mas feliz por ter encontrado um certo equilíbrio na tal gangorra da vida, mesmo com tantas quedas.

Um brinde a isso. E um brinde a Grant-Lee.

“He’s a boy who never cried
When they locked him up inside
And she nicknamed him her teardrop
For the tattoo by his eye…”

 

Fonte: Pequenos Clássicos Perdidos

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