Solos de guitarra não vão me conquistar

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Arte: Carlos Eduardo de Andrade

Por razões contratuais impostas pela força maior que é a soma de letras miúdas e uma assinatura apressada, a coluna desta semana precisa ser sobre o fatídico Dia Mundial do Rock (no Brasil). “Ahh, mas isso foi quarta passada?”. Pois bem, se a roqueiragem se farta até hoje com as glórias de outrora, que mal há em vir desejar um ‘parabéns’ levemente atrasado?

(Hm… Por um instante reflito se não seria, então, mais coerente republicar um texto sobre o mesmo assunto de um projeto antigo, melhor sucedido, revisitado para ser apresentado às novas gerações – o texto é de 2015¹. No entanto, logo percebo que, por mais mercadologicamente interessante que seja o artifício, é de bom tom insistir um pouco antes de apelar para uma espécie de Wyllian Correa: Acústico 2).

Retomando. O rock.

Hoje em dia, quando falam em rock, não consigo mais pensar no que ouço, no que ouvia, no gênero amplo, na história, na sua importância para a cultura contemporânea etc. Tudo o que ressoa no fundo da minha cabeça pretensiosa é uma vozinha imitada em tom de chacota dizendo “você curte um rock??”. Na hora é como se um descamisado de óculos escuros e cabelos esvoaçantes surgisse em um desfiladeiro, e começasse a solar a sua guitarra desplugada implorando pra que eu o empurre para a eternidade.

Só que a partir do momento em que releio o que acabo de digitar, outra memória se sobrepõe ao projeto inicial de seguir por um relato da vez em que um tio meu iniciou uma papo no almoço de domingo com “você que curte uns rock pesado tipo The Doors…”, e encerrar com o evento de Food Trucks & Southern Rock que fui meses atrás, junto à alguma dezenas de famílias de funcionários públicos brasilienses devidamente paramentadas de preto e bota, inclusive os bebezinhos com suas roupinhas do AC/DC.

Quando começo a azedar ainda mais com essa expectativa burocrática sobre curtir rock e sua celebração nostálgica, eu lembro do Regis Tadeu no Show do Manowar.

Eu não quero ser o gordinho mala que vai na festa alheia para escrotizar a alegria dos presentes². Não faz sentido eu ir na Quintaneja – Mulheres Free até Meia Noite – e reclamar que só toca sertanejo e que tá cheio de marmanjo bêbado. Essa coisa de detestar as pessoas por insistirem em gostar do que não gosto e ignorarem as minhas constantes reclamações quanto a isso.

Lembro da vez que postei sobre essa insistência em buscar, acompanhar e opinar com ênfase naquilo que despreza. “Devemos nos dedicar mais ao que gostamos do que odiamos”, mais ou menos isso.

Então eu percebo mais uma vez no meio da digitação que o texto toma agora uma certo encaminhamento conciliador, pacífico e sensato. Um cata-like sem a menor graça. Uma celebração do óbvio. Como um post em homenagem ao Dia do Rock.

\…/

¹ https://lanchonetepadaria.wordpress.com/2015/07/13/eu-nao-faria-piada-com-a-mae-dos-outros/

² eu preferia ser o cara que fala que o guerreiro, ele tem a honra, e o metal é isso, honra e muito som na veia.

 

 

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