Mesmo com certa resistência por parte de alguns artistas e gravadoras, o streaming tem ajudado a indústria da música a reconquistar sua saúde financeira


Antes de começar, dê um play 😉

Quando surgiu o vinil, decretou-se a morte do rádio. Depois, venho o Compact Disc e aniquilaram o bolachão. O MP3 tratou de enterrar o CD. Agora, o novo assassino das gerações passadas é o streaming. Mas, concordando com Charles Sanders Pierce (1830 – 1914), a tecnologia, pode – e deve – servir para facilitar a vida das pessoas, e não apenas para ser mais um mecanismo de disseminação do ódio.

O grande avanço proposto pela tecnologia streaming foi a de não ocupar espaço. Deixar o computador noites inteiras baixando gigas de arquivos em .torrent para conseguir filmes e álbuns completos ficou apenas no saudosismo dos hackers dos anos 2000. Alguém –Daniel Ek, no caso– tratou de armazenar 30 milhões de músicas para que nós pudéssemos ouvi-las em qualquer hora, em qualquer lugar, mesmo sem conexão de internet, nos casos das assinaturas premium.

Mas para allá de ser um sonho adolescente, a startup cresceu, e para isso precisou adentrar ao mundo dos adultos e ser economicamente viável e rentável. Não foi tarefa fácil. Advinda da Suécia, o berço da pirataria e do “cultura para todos e de graça”, o Spotify sofreu várias resistências por parte do mainstream da indústria fonográfica e de vários artistas. A discografia do Prince, por exemplo, só apareceu no serviço depois de sua morte, e por obséquio, sem sua expressa autorização. Jay-Z e Taylor Swift são alguns que mantém um discurso contrário à disponibilização online de suas músicas. Em seu site a empresa declara, “Queremos que todas as músicas do mundo estejam no Spotify.”

Mas o streaming já é a principal fonte de receitas da música nos Estados Unidos. Segundo reportagem da France Press de março de 2017, o faturamento do mercado é o maior desde 1998, com US$ 7,7 bilhões, sendo que a participação de transmissão digital em 2016 foi de 51% contra 9% de 2011. As receitas provenientes de downloads em plataformas como o iTunes caíram 22% em 2016 enquanto que as vendas de CDs recuaram 21%. Já o valente vinil teve um aumento 4% em suas vendas.

De acordo com a federação de gravadoras dos EUA (RIAA), empresas de streaming já rendem US$ 1,8 bilhão, mas repassam ao artista apenas R$ 0,003 por cada play. Essa fração do centavo ainda é dividida entre gravadoras, editoras, agregadoras e compositores.

Mesmo assim, o Spotify não dá sinais de fraqueza. Seu próximo passo é entrar na bolsa de valores, mas não através dos canais normais. Uma vez mais, a empresa busca caminhos mais ousados e inclusivos de operar no mercado. O Wall Street Jounal noticiou que a empresa de música online está considerando disponibilizar ações diretamente ao público, sem ter bancos determinando o valor de suas ações. Assim, o valor dos títulos é determinado apenas pela procura face à oferta. Ou seja, um processo mais barato, já que não existem custos de comissões que são cobradas nas operações de IPO.

Apesar de possuir mais de 50 milhões de assinantes, que pagam algo em torno de R$ 17 por mês –valor menor do que o de um CD– para ter acesso a mais de 30 milhões de música, quem opta pelo serviço gratuito também tem os mesmos acessos, apenas com intercalações de propaganda. O último álbum de Taylor Swift, “1989” (2014), não foi disponibilizado justamente por que o Spotify se recusou a limitá-lo aos usuários pagantes.

Essa postura do Spotify tende a mudar depois do contrato firmado com a Universal Music Group este mês. O Spotify autoriza a Universal a disponibilizar seus lançamentos com exclusividade apenas para os assinantes. Em troca, a Universal concorda em receber uma fatia menor por play, desde que o Spotify atinja metas, não divulgadas, no número de assinantes.

Matéria da Bloomberg revela que executivos da indústria da música muitas vezes reclamam em privado que o Spotify tem uma mentalidade muito estilo Silicon Valley, que prioriza a expansão da base de usuários gratuitos em vez de convencer as pessoas a assinarem.

O acordo entre o Spotify e a Universal é um marco na história da indústria fonográfica e pode lhe ter traçado um futuro financeiramente saudável. A indústria da música está arriscando como poucas empresas de mídia e de entretenimento o fizeram: mudaram seu modelo de negócio e estão se adaptando da venda física para a digital conseguindo gerar lucro. Graças ao streaming as receitas do setor cresceram consideravelmente pela primeira vez desde 1990 e os artistas, novos ou não, não dependem mais da MTV ou do jabá da rádio. Um avance e tanto.

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